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Aqui fica a transcrição do texto escrito pelo realizador Walter Salles e lido na cerimónia de abertura do festival, uma celebração destes 20 anos em palavras e linhas que muito nos alegram.
 

20 anos essa noite

“Não somos nem europeus nem norte-americanos. Privados de cultura original, nada nos é estrangeiro pois tudo o é”, dizia o critico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, mentor de vários realizadores do Cinema Novo brasileiro.
 
O Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, que Américo Santos e Cristina Mota criaram há 20 anos e desenvolveram com um olhar ao mesmo tempo agudo e afetivo, soube como poucos desvendar o nosso desejo de refletir uma identidade nacional em construção na tela. Cinema plural, impuro, de correntes que muitas vezes colidem mas convergem na busca de um reflexo multifacetado de nós mesmos. Das nossas contradições, imperfeições e querências, dos embates sociais, políticos, existenciais que nos caracterizam.
 
O cinema como a arte do desvendamento, da percepção de que o mundo pode ser muito mais amplo do que imaginávamos, é um sentimento de mão dupla em Santa Maria da Feira. Sem o Festival, não teria me encantado com os filmes de Paulo Rocha, João Nicolau e João Salaviza, e não teria descoberto um realizador tão sensível e singular quanto Miguel Clara de Vasconcelos, de quem guardo “Vila do Conde Espraiada” comigo até hoje. Imagino que muitos cinéfilos e cineastas portugueses e brasileiros tenham vivido uma experiência similar – a do descobrimento, que é constitutiva do Festival Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira.
 
A relação histórica entre portugueses e brasileiros foi construída “num misto de reconhecimento e estranhamento”, disse recentemente uma das curadoras do Instituto Inhotim, a portuguesa Marta Mestre. “Brasil e Portugal são países que, por razões históricas, sempre se olharam e se olham”. Às vezes, não o suficiente. Com a distribuição incerta do cinema independente e portanto do cinema português no Brasil, o Festival Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira oferece aos cinéfilos brasileiros a rara oportunidade de descobrir uma cinematografia tão original e vital quanto a que é realizada por jovens realizadores na terra do mestre Manoel de Oliveira. O contra-campo cumpre a mesma função, creio.
 
No nosso desejo de cinema, somos próximos. O cinema, como a literatura, existe para nomear aquilo que ainda não foi nomeado – seja em Portugal ou no Brasil. Para oferecer uma memória possível de seu tempo. De quem nós somos, ou fomos, em momentos distintos das nossas histórias. E, quando o olhar pertence a visionários como Glauber Rocha ou João Cesar Monteiro, de antever quem poderíamos eventualmente ter sido.
 
Ouve-se recorrentemente no Brasil que “somos um país sem memória”. O Festival, em sentido contrário, instiga o espectador a construir a sua própria memória do cinema brasileiro – e, portanto, do país. Não por acaso, uma retrospectiva de Leon Hirszman abre as portas, esse ano, para a obra de um cineasta que pensou nossos conflitos morais e sociais com uma pertinência rara. Justo no momento em que o país atravessa uma crise ética e moral sem precedentes. “Ultimas Conversas”, do saudoso Eduardo Coutinho, para muitos o maior documentarista brasileiro de todos os tempos, mergulha nas incertezas dessa era, dando voz a adolescentes que expressam seus desejos e angustias numa terra em transe.
 
De forma similar, as retrospectivas de realizadores tão extraordinários quanto João Cesar Monteiro ou Pedro Costa nos possibilitaram um mergulho em universos únicos, possibilitados por uma incomum liberdade e independência artística.
 
“É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”, dizia Ana Cristina Cesar, uma das mais brilhantes poetisas brasileiras. Realizar um festival de cinema não é, igualmente, uma tarefa simples. Américo e Cristina projetaram um Festival no espaço do cinema, que é também o da imaginação. E souberam reinventá-lo, generosamente, a cada ano. Por tudo e por tanto, só nos resta agradecer.
 
“Salaam Cinema”, Viva o Cinema, e longa vida ao Festival Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira.
 
Walter Salles